Bem vindo ao Blog de Ornitologia e Birdwatching da ONG MAE!

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Se você é ornitólogo profissional ou amador, ou um simples amante da natureza em especial da avifauna, este é o seu Blog. De agora em diante serão postadas novidades, notícias e informações interessantes obtidas através das pesquisas e atividades realizadas pela ONG MAE - Meio Ambiente Equilibrado, sobre a avifauna brasileira.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Nova edição do Checklist das Aves de Londrina - PR (OUTUBRO 2015)

    É com muita satisfação que nós da ONG MAE - Meio Ambiente Equilibrado, comunicamos que já está disponível a nova versão do "Checklist das Aves de Londrina - PR". O novo arquivo contém uma lista compilada com 344 espécies com registros recentes na cidade, e está disponível gratuitamente para download em PDF (CLIQUE AQUI PARA BAIXAR). Este Checklist é uma lista dos registros dos membros do Grupo de Ornitologia e Birdwatching da ONG MAE, somada a registros recentes disponibilizados em sites como Wikiaves, Xeno-Canto, e Táxeus.
    De uns tempos pra cá a atividade de observação de aves tem se disseminado cada vez mais no Brasil, e isto tem resultado na criação de inúmeros sites, aplicativos e listas de espécies de praticamente todo país. Pensando nisto, optamos por simplificar um pouco a busca de registros confiáveis das aves, pelo menos da nossa querida e amada cidade de Londrina - PR.

    Fique a vontade pra baixar e repassar pra seus amigos.

    Já fez observação de aves em Londrina?

Contato para guias da ONG MAE: gtaongmae@gmail.com



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Arco Norte SIM, Perto da Mata NÃO: ajude a salvar a Mata dos Godoy

        Olá prezados leitores. Esta postagem será diferente das que vocês já estão familiarizados, e abordará um problema recente e eminente para a cidade de Londrina e toda região norte do Paraná. O problema tem nome e sobrenome: Arco Norte.
     O Arco Norte é um projeto de desenvolvimento regional que visa a instalação de um complexo comercial-industrial-aeroportuário na região norte do Paraná. Este projeto é baseado num conceito chamado "Aerotrópole", que nada mais é do que a construção de um aeroporto (daqueles para receber aviões cargueiros 24 horas por dia) rodeado por instalações de indústria e comércio, e esta combinação tem objetivo de criar uma estrutura que permita a produção, manufatura, distribuição e comercialização praticamente tudo no mesmo local, reduzindo custos logísticos.
     Até aí tudo ótimo, o projeto é maravilhoso, super importante para a região, vai criar milhares de empregos entre temporários e fixos, e vai acelerar o desenvolvimento de Londrina e cidades satélites. Mas como tudo de grandioso que o homem criou, este projeto vem acompanhado de uma grandiosa inconsequência na escolha de sua área de instalação. Já tivemos exemplos de mega-empreendimentos no Brasil que nos custaram riquezas naturais insubstituíveis e que hoje estamos descobrindo a cada dia que passa, quão importantes elas são e o quanto dependemos delas. Alguns exemplos de mega-empreendimentos que foram mega-destruidores ambientais são: a Usina de Itaipú (que fez desaparecer o parque das 7 quedas e inundou uma das regiões mais biodiversas do Brasil), a Usina Mauá (que fez desaparecer outro ponto de altíssima biodiversidade do Paraná incluindo patrimônios arqueológicos), a transposição do Rio São Francisco que mau saiu do papel e a região já enfrenta os efeitos da seca.
        No caso do Arco Norte, a área escolhida para instalação é um platô divisor de águas (popularmente chamado de espigão) a aproximadamente 500m do Parque Estadual Mata dos Godoy, uma das maiores e mais importantes unidades de conservação do norte do Paraná. O parque tem sua importância destacada pela grande riqueza e diversidade que ali habitam. Espécies ameaçadas de extinção no estado do Paraná (Mikich & Bernils, 2004) é o que não falta na Mata dos Godoy, só da fauna são 28 espécies ameaçadas, dentre estas espécies podemos destacar a Anta (Tapirus terrestris) e o Gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus), e no que diz respeito à flora a lista de ameaçadas estadual está sendo atualizada, mas dentre as espécies constantes na lista antiga podemos destacar a majestosa Peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron). Ocorrem ainda no Parque o Cedro (Cedrella fissilis) e o Palmito-juçara (Euterpe edulis) considerados ameaçados nacionalmente (Martinelli & Moraes, 2013).
      Além de um oásis da biodiversidade, o Parque é conhecido pelos serviços ambientais que presta sem cobrar nada da população. Dentre estes serviços estão a manutenção da qualidade de água do ribeirão apertados, onde há estações de captação de água para consumo em Londrina e região metropolitana, além de ser um afluente do Rio Tibagi, principal rio da região de onde muita gente tira seu sustento.
      Outro serviço prestado é o aumento da fertilidade do solo nas propriedades agrícolas ao redor, serviço este que é inerente a qualquer fragmento florestal nas regiões agrícolas, no entanto, os maiores (como é o caso do Parque) são mais eficientes nesta função (Cunha et al, 2003).
       Existem ainda outros serviços prestados pela mata, mas creio que estes citados já dão uma boa noção da importância do parque para a região, e sem deixar este texto muito longo.
       Agora o que dizem os empreendedores defensores da instalação do Arco Norte? Antes de mais nada, deixo claro que os comentários dos empreendedores, não são reproduções literais, mas sim "traduções" da linguagem do "embromation corporativo" para o popular. E a ideia central dos comentários está escrita em Vermelho.
       Obviamente, começam com o discurso da criação de empregos e desenvolvimento regional. Ok, até aí, é uma argumentação legítima. Benefícios econômicos e sociais deste projeto podem ser relevantes, e o desenvolvimento pode ser uma consequência, mas será que devemos nos desenvolver em detrimento dos recursos ambientais? Não há alternativas de outras localidades? Claro que há outros locais, não é a toa que o nome do nosso movimento é "Arco Norte Sim! Perto da Mata Não".
       Mas não pararam por aí, quando são questionados sobre a viabilidade ambiental deste projeto, começa o show de horrores argumentativos.
       Dentre eles uma frase que me marcou bastante quando ouvi: "O barulho dos aviões vai ser traumático só nos primeiros dias, depois os passarinhos estarão acostumados e até surfarão nas turbinas".
       Parece mentira que disseram isso né? Antes fosse meus caros... antes fosse.
      Outro argumento-show foi dizer que não haverá impactos sobre a fauna e flora da mata, um monte de aviões cargueiros (Antonov) subindo e descendo 24 horas, muito menos na qualidade da água do ribeirão apertados.
     Afinal, que mal tem um monte de barulho, borracha de pneus de caminhão e avião, combustível e demais resíduos naturalmente liberados pelas atividades humanas sendo lixiviados para dentro da mata. E o pior é encherem a boca para dizer isso batendo no peito que tem o "know how" de 20 anos de experiência neste ramo e que nunca houve problemas.
       Ok, eles têm 20 anos de experiência no ramo e dizem ter "know how" pra executar obras deste tipo. Mas desde quando os 30 anos de pesquisas científicas das universidades da região (em especial a UEL - Universidade Estadual de Londrina) na Mata dos Godoy devem ser menosprezados nas discussões de projetos deste tipo?
       São 30 anos de estudos científicos que atestam a importância e a sensibilidade do Parque Estadual Mata dos Godoy, e há argumentos suficientes para praticamente retirar a cidade de Londrina do mapa em prol do Parque (calma gente claro que foi apenas um pouquinho de extremismo didático e não queremos isso acontecendo). Ou seja, se os 20 anos de experiência destes senhores empreendedores são suficientes para afirmar que o Aeroporto pode ser instalado sem impactos significativos, o que dizer dos 30 anos de estudos das Universidades que mostram sob várias óticas, justamente o contrário?
         Não teriam as Universidades NO MÍNIMO o mesmo "know how" destes empreendedores?
         Mas por que elas estão sendo ignoradas?
     Outro argumento-show dos empreendedores é dizer que não há sequer um projeto, há apenas especulações, e idéias, nada mais. 
       Mas poxa, que ideia cara esta que custa 2 milhões de reais para que sejam feitos estudos de viabilidade deste "projeto", costumo ter várias idéias, mas são gratuitas ou muito baratas.
     Ah, outra argumentação-show que os empreiteiros fazem quando pressionados é uma comparação - quase surreal - do Arco Norte, com o Aeroporto de Foz do Iguaçu, que faz divisa com o Parque Nacional do Iguaçu, maior unidade de conservação do Paraná, e segundo eles, não causa grandes impactos (apesar de até hoje não entender o que é grande impacto pra eles)..
        Quem escuta essa comparação e não conhece muito dos projetos e respectivas regiões, pode até achar válida mas vamos aos fatos, ou melhor, imagens.
        A seguir, imagens de satélite (Google Earth) comparando as duas situações, Arco Norte e Aeroporto de Foz do Iguaçu:
         Começando pelo Parque Nacional do Iguaçu e seu vizinho Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu, uma imagem de satélite destacando a proximidade dos dois.
Aeroporto Foz do Iguaçu e Parque Nacional do Iguaçu. Fonte Adaptado de GOOGLE EARTH.
         Difícil de ver o aeroporto né? vou ampliar a região um pouco...

Aeroporto Foz do Iguaçu e Parque Nacional do Iguaçu, Aproximado 1. Fonte Adaptado de GOOGLE EARTH.
       Ainda difícil de ver o aeroporto né? Vou ampliar um pouco mais...

Aeroporto Foz do Iguaçu e Parque Nacional do Iguaçu, Aproximado 2. Fonte Adaptado de GOOGLE EARTH.
      Agora é possível ver (com certa dificuldade) a grande pista do aeroporto de Foz do Iguaçu, e a proporção do aeroporto em relação ao Parque Nacional.
      Pois então, vamos ao caso do Arco Norte paranaense, como o aeroporto ainda não existe (ainda bem) obviamente não estará visível no Google Earth, mas tenho imagens da apresentação do projeto que vão ajudar na percepção da proporção Aeroporto do Arco Norte e Parque Estadual Mata dos Godoy. 
      Vamos à primeira das imagens, capturada durante uma apresentação do projeto aberta ao público, organizada pela rádio CBN, apenas uma representação gráfica do projeto em um mapa.

Projeto Arco Norte exibido durante apresentação organizada pela rádio CBN.
      Agora mais uma imagem capturada durante a apresentação (esquerda), desta vez de uma imagem de satélite em baixa resolução, comparada com uma imagem de satélite do mesmo lugar retirada do Google Earth, com melhor resolução.


     E por fim, uma imagem Google Earth do local, indicando onde será instalado o aeroporto (seta amarela), e indicando onde fica o Parque Estadual Mata dos Godoy (PEMG).

Imagem de satélite da área onde planejam instalar o aeroporto do Arco Norte e o PEMG. Fonte: GOOGLE EARTH.
     Agora eu sugiro a você estimado leitor, que compare as duas situações. Atente para os tamanhos do aeroporto de Foz do Iguaçu e do P. N. de Foz do Iguaçu, e compare com os tamanhos do Aeroporto do Arco Norte e do PEMG.
      Precisa dizer algo mais pra mostrar o quão absurdo é justificar o Arco Norte com o caso de Foz do Iguaçu? Acho que não né? O aeroporto de Foz é praticamente engolido, e ainda por cima, por um dos trechos mais estreitos do P.N. do Iguaçu, enquanto o aeroporto do Arco Norte, vai praticamente engolir o PEMG.
      Mas mesmo assim, preciso dizer só mais uma coisa, um "pequeno detalhe" ignorado pelos empreiteiros. O projeto do Arco Norte, em especial o seu aeroporto, está situado na zona de amortecimento do PEMG, ou seja, região onde deveriam haver grandes restrições de atividades humanas e ser protegida por lei.
      Construir o Arco Norte ali só deixaria claro que a lei funciona apenas para os pequenos, enquanto os grandes, moldam-na de acordo com seus interesses. E acreditem, a área chegou a ser declarada de utilidade pública (o que revogou as restrições da zona de amortecimento) pela administração municipal passada. No entanto, esta declaração foi retirada pela administração atual (menos mal), mas ainda assim, o Arco Norte ainda assombra como se nada disso fosse suficiente para impedir sua concretização.
      Quer saber mais? Nós da ONG MAE fizemos um vídeo muito esclarecedor sobre os motivos do Arco Norte NÃO PODER ser instalado do lado do Parque Estadual Mata dos Godoy. Ha também um abaixo assinado, se quiser contribuir, agradecemos desde já. Os links para o video e para o abaixo assinado estão logo abaixo.
      E para não esquecerem do nosso lema, ARCO NORTE SIM, PERTO DA MATA NÃO!





REFERÊNCIAS:

Cunha et al. (2003): http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/semagrarias/article/view/2179/1871
Mikich & Bernils (2004): http://www.maternatura.org.br/livro/index.asp?idmenu=intr&idgrupo=0
Martinellis & Moraes (2013) http://cncflora.jbrj.gov.br/LivroVermelho.pdf.


domingo, 28 de julho de 2013

Como escolher um bom gravador para observação de aves

     Como a postagem anterior referia-se às técnicas de playback, achamos interessante fazer uma nova postagem para auxiliar aqueles que buscam iniciar-se ou aperfeiçoar-se na arte de gravar as vozes de nossos amigos penosos. Aqui explicaremos e indicaremos no que se deve estar atento para a compra de um Gravador para aves.
     Primeiramente, é interessante lembrar que o som é emitido e se propaga em forma de ondas, e essas ondas têm determinadas frequências que são medidas em Hertz (Hz). Esta unidade de medida refere-se ao número de vibrações ou oscilações da onda sonora por segundo, ou seja, uma onda de 400Hz vibra 400 vezes por segundo. A voz humana por exemplo, não costuma ultrapassar os 6000Hz de frequência independente do gênero (homem ou mulher).
      Uma ave com vocalização aguda e estridente emite ondas sonoras com alta frequência (p.ex. 15000Hz), já aves com vocalização mais grave e suave emitem ondas sonoras de baixa frequência (p.ex. 300Hz). Logo, se você pretende gravar qualquer uma destas aves hipotéticas, o seu gravador deve ser capaz de captar uma gama de ondas sonoras que englobe as duas frequências citadas. 
     Para esclarecer, se você compra um gravador cuja gama de frequências captadas é de 70Hz a 6000Hz, você conseguirá captar apenas o som da ave de vocalização mais grave (300hz), enquanto a de vocalização aguda (15000Hz) passará despercebida pelo aparelho. Agora se você comprou um gravador cuja gama de frequências é de 400Hz a 17000Hz acontecerá o contrário, e o aparelho captará apenas o som agudo, enquanto o grave passará despercebido.
      Esta questão das frequências que o gravador consegue captar, é primordial para que você ao menos consiga o registro das espécies, no entanto, ela não é garantia de que a qualidade da gravação seja boa. Você pode gravar uma ave com canto mais grave em um gravador que vai apenas até 6000hz, e ela ficar mais nítida do que uma gravação de uma outra ave de canto agudo captada por um gravador que capta até 15000hz. E o contrário também pode acontecer.
        Uma das características que resulta nesta diferença, é o formato da mídia que será gravada, e isto varia obviamente entre um gravador e outro.
         Existem gravadores de vários tipos... como os antiquíssimos gravadores "portáteis" de rolo:
os populares gravadores de micro-fita cassete:
gravadores de fita cassete portáteis e não tão portáteis assim:


e os gravadores digitais profissionais e super compactos:


           Mesmo com tanta variedade de gravadores, dá pra simplificar bastante a análise.
     As chances de você encontrar um gravador de Rolo portátil funcionando, e ter disposição para carregar um destes durante sua passarinhada (especialmente se você não é profissional da área), são reduzidas, então de cara podemos descarta-los das possibilidades.
     Então fiquemos entre os gravadores de fita, micro-fita e digitais.
     Os gravadores de fita ou micro-fita, mesmo que apresentem uma vasta gama de frequências (p.ex. o aclamado Sony TCM-5000EV e sua invejável gama de 90-90000hz) dependem muito da qualidade da fita em si para que as gravações sejam feitas com menos ruído e/ou mais fiéis. Trocando em miúdos, não adianta utilizar um TCM-5000EV com uma fita de baixa qualidade. A maior diferença entre as fitas cassete comuns, e as micro-fitas cassete - além do tamanho físico é claro - é o tempo de gravação de cada uma. As comuns foram popularizadas com os modelos de 60 minutos (30 de cada lado da fita), enquanto as micro-fitas gravam apenas 30 minutos (15 de cada lado). Se você é um gravador ocasional, esta diferença de tempo pode não representar um incômodo, mas se você é um profissional da bioacústica esteja preparado para carregar algumas "fitinhas". Como esperado, as fitas cassete passaram por um longo processo de aperfeiçoamento, em busca de uma composição da fita magnética que fosse mais resistente ao tempo e às constantes gravações e regravações (quem usou fitas sabe bem o que é gravar e apagar as fitas para que sejam reaproveitadas). O ápice desta evolução são as fitas IEC Type IV, também conhecidas como fitas "Metal", que eram consequentemente, mais caras que as IEC Type I, II e III.
     Mas ainda haviam outras táticas para melhorar ainda mais a qualidade das gravações nas fitas Cassete, e uma delas era aumentar a velocidade de gravação.
     Como assim?
     A grosso modo, uma fita de 60 minutos, seria utilizada para gravar apenas 30 minutos no mesmo espaço, utilizando uma velocidade de gravação de 2x. Ou seja, se para 20 segundos de gravação, numa velocidade normal seriam utilizados 30 centímetros da fita, em velocidade duplicada seriam utilizados 60 centímetros da mesma fita.
      E como isto melhora a qualidade?
      É uma questão de resolução, e podemos usar o exemplo de um quadro. Um pintor retratista consegue reproduzir mais detalhes da pessoa em uma tela do tamanho de um cartão de visitas, ou em uma tela do tamanho de uma cartolina? Funciona mais ou menos assim com o som, se você oferece mais espaço para gravar uma mesma faixa, mais detalhes serão reproduzidos.
      Agora a pergunta fatídica: Compensa investir num gravador de fita em plena era digital?
      Eu diria: Talvez.
      Se você herdou de seu pai ou avô, um gravador de fita profissional, com especificações maravilhosas, e com fitas de boa qualidade, dá pra usar sem medo. As gravações ficarão ótimas, e é possível você digitaliza-las posteriormente com um computador munido de uma boa placa de som, com um bom software, para não perder a fidelidade das gravações.
      Agora se você não herdou, e pretende adquirir um, a não ser que a oferta seja irrecusável, acho que você não iria querer carregar um monte de fitas pra cima e pra baixo, além do próprio gravador grande e pesado, por um preço até hoje salgado (mesmo os usados) e ainda ter que correr atrás de fitas cassete Metal, que estão cada vez mais raras no mercado.
       Um fator, que pra mim é decisivo na opção por não usar gravadores de fita, é a dificuldade de ficar rebobinando a fita para conferir a gravação, mesmo naqueles gravadores com marcador de tempo. É um tanto chato ficar alternando entre os botões RW e FF até encontrar o ponto da gravação. Sem contar a chance de você rebobinar demais a fita sem querer, e sobrepor suas gravações com outras.
       Por fim, antes tarde do que nunca, vamos aos gravadores digitais.
      Como o próprio nome diz, são gravadores que utilizam midias digitais para gravação, seja uma memória flash interna, ou cartão de memória, ou mesmo pen drive. As vantagens dos gravadores digitais de modo geral são: tamanho reduzido, alta capacidade de tempo de gravação (não é difícil encontrar modelos que gravam até 48 horas utilizando apenas a memória interna). E mesmo que o gravador não tenha uma mémoria interna generosa, se ele tiver entrada para cartão de memória, é muito mais fácil carregar alguns cartões no bolso, do que algumas fitas cassete. Já a desvantagem vai de encontro com a de qualquer outro produto, o barato pode sair caro.
      Novamente, é importantíssimo estar atento às especificações técnicas do gravador. A gama de frequência continua sendo uma das principais características a serem consideradas, e para que um gravador seja efetivo no mundo ornitológico, esta gama de frequencia deve ser a mais abrangente possivel. Costumo dizer que se existisse um gravador que captasse de 1hz até 100000hz seria perfeito, mas o mínimo para um gravador digital de qualidade é algo em torno de 70 - 15000hz, e conforme as medidas vão além deste padrão para os dois lados (de 70 ou menos, até 15000 ou mais), melhor a capacidade e fidelidade de graves e agudos.
       Outra especificação que devemos estar atentos, é a taxa de amostragem (sampling rate) do gravador. A taxa de amostragem mínima dos aparelhos de boa qualidade, é de 44.1khz, e também são os mais comuns. Outros valores razoavelmente comuns são de 48khz e 96khz, obviamente, refletem no preço do aparelho. Para fins de comparação, o que há de mais avançado (das tecnologias já difundidas para todos) em qualidade de som, são os discos de audio DVD e Blu-ray, com capacidade de gravação e reprodução de 192khz. Quanto maior a taxa de amostragem, maior a qualidade de som, e maior o preço do aparelho.
      E por fim, para não alongar ainda mais o texto, a taxa de bits (bit rate) do gravador. Quem nunca encontrou a mesma música em mp3, com qualidade e tamanho de arquivos completamente diferentes? É aí que entra a taxa de bits, ou como representados no mundo digital, o valor de kbps. Uma música codificada num arquivo de 128kbps, terá uma clareza sonora menor do que a mesma música codificada num arquivo de 320kbps. E como esperado, o arquivo com 320kbps será muito maior do que o com 128kbps. Novamente aquela relação "tamanho-qualidade". Se seu gravador disponibiliza mais kbps para uma gravação, ele conseguirá reproduzir mais detalhadamente a mesma. O recomendado é que se busque gravadores com bit rate de no mínimo 128kbps, para que (aliado às outras especificações já faladas) o gravador consiga captar uma réplica aceitável de qualquer emissão sonora.
        Há ainda outras características a serem analisadas num gravador digital? Com certeza, se você for buscar tudo, ficará um bom tempo pesquisando, como por exemplo se ele oferece conexão USB para computadores. Parece absurdo mas o meu primeiro gravador digital não tinha conexão USB, e eu tinha que passar as gravações para o PC como se fosse um gravador de fita, reproduzindo faixa por faixa e gravando num software específico.
           Bom, apesar de longo, espero que o texto seja um pouco esclarecedor e auxilie todos na escolha de um bom gravador. E gostaria de pedir para quem não leu, que conferisse a postagem sobre até onde podemos ir com o uso de Playback na observação de aves (http://ornitologiamae.blogspot.com.br/2013/02/tecnica-de-playback-na-observacao-de.html). Afinal, se você adquire um gravador, uma das funções dele é criar seu próprio banco de dados sonoro, cuja utilização pode ir das pesquisas de bioacustica, venda de trilhas sonoras, uso como toque de celular, ou como acervo de playback para uma "passarinhada".

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Técnica de "Playback" na observação de aves, até onde podemos ir?

     As aves sempre fascinaram o homem, seja pelas suas variadas combinações de cores e contrastes, ou pela notória capacidade de voar. Esta admiração resultou num cenário rico em pesquisas e amantes ornitológicos (exceto aqueles que se dizem amantes das aves mas "apreciam-nas" em gaiolas), que contribuem para a preservação destes formidáveis seres alados. 
       Pesquisadores e observadores andam praticamente juntos atualmente, com um grupo usufruindo dos resultados do trabalho do outro. É fácil observar isto, por exemplo, quando se vê dezenas de pesquisadores "migrando" para um determinado local, onde por acaso, um observador informalmente registrou uma determinada espécie de grande importância. O contrário também ocorre, quando vemos dezenas de observadores que "migram" para um determinado local onde foram descobertas centenas de espécies durante alguma pesquisa da avifauna. Esta relação pesquisador-observador é sem dúvidas muito importante e proveitosa para ambos lados.
      Mas todos sabem, ou pelo menos imaginam, que registrar aves em seu habitat natural, é muito mais complicado do que parece. As vezes você abre um livro de aves de um determinado local, e nele há fotos e mais fotos de várias espécies comuns e raras, e você pode até pensar "poxa se eu for neste lugar então eu vou ver tudo isto?", mas obviamente não é assim que funciona. Os registros com certeza são frutos de anos de trabalho se especializando e correndo atrás dos bichos.
     E para facilitar os registros, há várias décadas vêm sendo criadas e aperfeiçoadas técnicas de Bioacústica, que é um ramo da Biologia que estuda as vocalizações dos animais, sendo aplicada para estudos com Aves, Anuros, Mamíferos e Insetos. A bioacústica visa entender os tipos de vocalizações de cada espécie, a função de cada tipo de vocalização, e consequentemente, aprimorar os conhecimentos etológicos (comportamento animal). É desta ciência que surgiram as técnicas de gravação das vocalizações e consequentemente, o playback.
     Um dos pioneiros da Bioacústica é o Engenheiro de formação Johan Dalgas Frisch, que desbravou o Brasil atrás de novos registros sonoros de nossos amigos penosos com seu gravador de rolo e microfones "caseiros". Foi também pioneiro ao lançar discos de cantos de aves, em especial os discos com clássicos da música mundial permeados de cantos de aves brasileiras (é bem interessante ouvir "Tico-tico no fubá" somada aos cantos de várias aves começando pelo próprio Tico-tico).
Johan Dalgas Frisch. Fonte: Aves Brasileiras Minha Paixão, Frisch (2005)
    Outro nome de respeito na Bioacústica, é Jacques Vielliard(1944-2010†), um pesquisador Francês que veio ao Brasil em 1976, e foi o responsável pela criação do Laboratório de Bioacústica da UNICAMP, um dos mais completos do Brasil.

Jacques Vielliard
     Cada um com sua abordagem, um mais passional, e o outro mais técnico, os dois com certeza são os principais tutores dos ornitólogos de hoje neste fascinante e complexo ramo da bioacústica das aves ("ornitoacústica" talvez?... kkkkk). Se você é um Ornitólogo técnico, utiliza a bioacústica em seus trabalhos, e nunca ouviu falar destes dois, e por isso acha que não eles são seus tutores, pergunte ao seu professor ou orientador, e veja com quem ele aprendeu. hehehehe.
      O que talvez nem Dalgas tampouco Vielliard imaginariam é que a bioacústica fosse se tornar algo tão acessível como está hoje. Atualmente é possível encontrar gravadores de ótima qualidade até mesmo em supermercados, coisa que há 50 anos atrás era inimaginável.  Há cada vez mais pessoas - pesquisadores ou não - com bons equipamentos de gravação fazendo registros sonoros de aves pelo Brasil a fora. Com isto, uma verdadeira chuva de gravações tem sido submetidas diariamente aos sites especializados e de livre acesso sobre aves, como o pioneiro "Xeno-canto" e a nova febre nacional "Wikiaves". 
     Hoje em dia Literalmente qualquer pessoa que tenha um mp3 player ou um celular com capacidades musicais pode forrar seus aparelhos com cantos de aves "baixados" da internet, e se aventurar por aí reproduzindo os cantos e fazendo o que chamamos de playback.
     Isto é ótimo não é!?
     Digamos que Sim, mas Não.
     SIM, pois com mais pessoas se interessando pelos nossos amigos alados, mais pessoas são sensibilizadas pela sua beleza e diversidade, e consequentemente atentam para a importância da preservação ambiental.
     E NÃO, porque muita gente não sabe lidar com este "poder" adquirido ao carregar seu aparelho lotado de cantos de aves. Vou explicar melhor.
     O Playback começou a ser utilizado na ornitologia para facilitar o trabalho e os registros das espécies de aves, em especial durante pesquisas e estudos. Muitas vezes esta técnica é utilizada apenas para atestar a presença de determinada espécie em determinado local para daí então. se a espécie permitir, tentar uma aproximação para foto.
     Mas o que tem acontecido ultimamente, é que com incrível crescimento no número de pessoas interessadas em praticar a observação de aves no Brasil há, obviamente, mais visitação humana nos locais tidos como "ideais" para a prática. São cada vez mais pessoas adentrando em matas e unidades de conservação, e que de posse de seus equipamentos para playback saem tocando as mais variadas aves afim de fazer bons registros das espécies. Isto por si só, já pode representar um infortúnio para as aves, que antes conviviam esporadicamente com pesquisadores, e hoje recebem quase diariamente pessoas comuns e Guias munidos de "playback".
     E conforme o observador de aves aumenta seu número de espécies registradas, obviamente as espécies mais crípticas e aríscas vão se tornando prioridade. E aí mora um perigo maior ainda.
     Se a espécie é naturalmente arisca, é porque ela NATURALMENTE (volto a dizer) não gosta da presença de outros animais, incluindo esse tal de Homo sapiens. E de repente, esta espécie começa a ser chamada com mais frequência, e quando é chamada, o misterioso "parceiro" simplesmente canta sem parar e quanto mais a ave procura, menos pista encontra de tal parceiro.
     Recapitulando... uma espécie arisca, que não costuma cantar muito, que se esconde durante todo o dia, de repente se depara com um misterioso ser de sua própria espécie (playback) que canta sem parar. Agora imaginem esta situação se tornando cada vez mais constante, com esta nova "superpopulação" de passarinheiros por aí.
    Eu (Renan Oliveira) sou Biólogo e Guia de Observação de Aves, isso não é mistério para ninguém, inclusive ofereço junto à ONG MAE a atividade de birdwatching por este blog. Com isto tenho tido bastante contato com clientes, amigos passarinheiros, e com outros Guias. Uma das reclamações mais comuns entre os guias é "Guiei uma pessoa que ficava pedindo pra eu fazer playback até a ave parar em um determinado local pois lá era onde a luz estava melhor para a foto". A reclamação tem total fundamento, em especial para aqueles guias com um pouco mais de instrução sobre a biologia das aves.
      O maior problema, é que não há comprovação científica significativa de que playback faz "bem ou mal" para as aves. Neste caso, nos resta compartilhar experiências.
      Há alguns anos, eu (Renan Oliveira) estava em uma unidade de conservação em Londrina, ainda no início de minhas expedições ornitológicas sérias, resolvi tentar fotografar um dos passarinhos mais comuns e também um dos mais procurados por aqui, o Estalador (Corythopis delalandi). Obviamente, para facilitar o processo, resolvi usar meu acervo sonoro e soltar o bom e velho playback.
        Comecei a chamar a ave, que prontamente começou a responder... Conforme eu seguia chamando a ave, ela aproximava mais e mais... Nesse meio tempo haviam passados aproximadamente 20 minutos de "diálogo" entre minha caixa de som e a ave. Obviamente meu playback não era constante ao longo destes 20 minutos, e eu só tocava depois que a ave respondia.
        De repente comecei a escutar a ave sempre de um mesmo ponto, e adentrei um pouco na mata para tentar a foto. Para minha surpresa, ela estava no chão, cantando próximo ao tronco de uma pequena árvore,  de onde ele tentava pular para um galho que estava a mais ou menos 30 cm de altura. Uma altura baixíssima para uma ave, mas que o pobre Estalador não conseguia subir.
         Logo notei que eu havia estressado tanto o animal que ele havia praticamente perdido as forças e mau conseguia sair do chão. Fiquei chocado, e o remorso tomou conta no mesmo minuto. A partir daquele momento, me afastei do bicho e fiquei acompanhando em silêncio para ver se ele se recuperava e seguia sua vida. Por minha sorte (foi sorte mesmo) depois de alguns minutos ele se recuperou e voou pra dentro da mata.
        Resumo da história, a partir daquele dia, nunca mais "azucrinei" uma ave para conseguir o melhor registro, e tenho orientado a todos que tenho contato, profissionais ou amadores, para tomarem o mesmo cuidado. Do mesmo jeito que certas espécies são muito tolerantes, outras podem sofrer bastante com o uso excessivo de playback.
       E ainda assim, mesmo aves mais comuns - como é o caso do Estalador em Londrina - que teoricamente seriam mais tolerantes ao contato humano, podem sofrer com o uso excessivo da técnica.
           Uma dica?
           Aprenda a respeitar a vontade das aves, e só faça o registro que elas permitirem. Já fiz muitas fotos e gravações sem playback, que ficaram ótimas. Muito mais do que ter o canto da ave e chama-la com seu equipamento até uma "super pose" para observar ou fotografar o animal, a observação de aves é uma arte de como você deve se comportar no ambiente delas, sempre com o mínimo de barulho, e o máximo de respeito.